fragmento de ensaio
“A característica que define a boa literatura, ou arte, é a capacidade de fazer se abrir um terceiro olho em nossa testa. Que nos faça ver coisas antigas e batidas de um modo totalmente novo. (…) A grande literatura tem se posto nos lugares e nas peles dos outros, estranhos, às vezes odiosos, seres humanos, dom Quixotes, os Iagos, os Raskolnikovs deste mundo. A literatura ruim não vai fazer se abrir um terceiro olho. Vai simplesmente repetir o que já sabemos, e nos mostrar apenas o que já vimos. (…) A boa literatura faz o oposto da fofoca: ela nos conta algo que não sabíamos, sobre nós mesmos e sobre os outros. Ou algo que não queríamos saber. (…) Assim, um boato dirá: ‘Oh, o homem está ficando velho!’. Um romancista medíocre escreverá: ‘A velhice é uma coisa tão triste!’. Mas Tchékov pode escrever sobre um velho médico curvando-se para uma moça desmaiada, tomando seu pulso, erguendo-se e pronunciando estas três palavras devastadoras: ‘Eu esqueci tudo’.”
in Poemas, 1937
Moram em mim
Fundos de mares, estrelas-d’alva,
Ilhas, esqueletos de animais,
Nuvens que não couberam no céu,
Razões mortas, perdões, condenações,
Gestos de amparo incompleto,
O desejo do meu sexo
E a vontade de atingir a perfeição.
Adolescências cortadas, velhices demoradas,
Os braços de Abel e as pernas de Caim.
Sinto que não moro.
Sou morada pelas coisas como a terra das
[ sepulturas
É habitada pelos corpos.
Moram em mim
Gerações, alegrias em embrião,
Vagos pensamentos de perdão.
Como na terra das sepulturas
Mora em mim o fruto podre,
Que a semente fecunda repetindo a vida
No sereno ritmo da Origem.
Vida e morte,
Terra e céu,
Podridão, germinação,
Destruição e criação.
- Autor: Adalgisa Nery • Deixe seu comentário
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