O tempo fechou. Faz frio.
(Os dias todos não podem ser de sol).
Arrasto meu esqueleto tardio porta afora
até o nicho mais furtivo
da indolência,
e sou um bicho
-solitário,
arisco,
sem remédio.
É tudo um risco:
sentar-me aqui, com o hibisco
roxo e ríspido, a perfurar o céu
ou molemente divagar
perto do lago.
Imagem ou Imago,
tanto faz.
Já não me comovem tais assédios.
De início,
quando o mundo ainda era nítido
-e tudo se quedava oferto,
explícito –
a solidez das coisas me enredava.
Mas fui confundindo o fio
com a meada
e agora o panorama é um tanto pífio.
Agora não há brilho que me cegue.
Nem mesmo minha sombra me persegue
se todo passo dá no precipício.
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.
- Autor: Fernando Pessoa • Deixe seu comentário
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