Canto da minha maneira - Mário de Andrade

em terça-feira, 30 de abril de 2024

Retrato de Mario de Andrade, por Lasar Segall (1927)

Canto da minha maneira. Que me importa se não me entendem? Não tenho forças bastantes para me universalizar? Paciência. Com o vário alaúde que construí, me parto por essa selva selvagem da cidade. Como o homem primitivo cantarei a princípio só. Mas canto é agente simpático: faz renascer na alma de um outro predisposto ou apenas sinceramente curioso e livre, o mesmo estado lírico provocado em nós por alegrias, sofrimentos, ideais. Sempre hei de achar também algum, alguma que se embalarão à cadência libertária dos meus versos.

A Ponte — Franz Kafka

em domingo, 21 de abril de 2024

Franz Kafka

Rígido e frio, eu era uma ponte, uma ponte estendida sobre o abismo. Deste lado estavam as pontas dos pés, do outro as mãos, que eu metera pelo barro adentro a fim de segurar-me. As abas de minha casaca tremulavam-me nos flancos. Lá no fundo corria, ruidoso, o gélido riacho de trutas. Turista algum errava por aquelas alturas intransitáveis; a ponte ainda não figurava nos mapas. — Assim, ali estava eu à espera; cumpria-me esperar. Sem desabar, ponte nenhuma pode, uma vez erigida, deixar de ser ponte.

Certa ocasião, foi ao anoitecer — era a primeira vez, ou a milésima, não sei ao certo —, meus pensamentos andavam sempre a dar voltas, numa confusão. Num anoitecer de verão, em que o riacho murmurava, obscuro, ouvi passos de um ser humano. Vindo até mim, até mim. — Estica-te, ponte; coloca-te em posição; mantém-te confiante, trave sem parapeito. Busca compensar-lhe, sem que ele perceba, a insegurança do passo; depois, dá-te a conhecer e, como um deus das montanhas, arroja-o à terra.

Ele veio; percurtiu-me com a ponta de ferro de sua bengala; a seguir, ergueu com ela as abas de minha casaca e as arrumou sobre mim. Correu a ponta da bengala pelo meu cabelo ramalhudo e, provavelmente olhando espantado à volta, deixou-a ali ficar por longo tempo. Mas por fim — eu o sonhar por montes e vales — pulou com ambos os pés para o meio do meu corpo. Totalmente ignorante, experimentei dor intensa. Quem era ele? Uma criança? Um sonho? Um salteador? Um suicida? Um tentador? Um exerminador? E virei-me para olhá-lo. — Uma ponte virar-se! Não chegara ainda a virar quando despenquei; despenquei e pronto me rasgaram e me furaram a carne os seixos pontudos que sempre me haviam fitado tão serenamente das águas frenéticas.

O Disco — Jorge Luis Borges

em domingo, 14 de abril de 2024

 Retrato de Jorge Luis Borges por Emilio Angel Sirimarco

Sou lenhador. O nome não importa. A choça em que nasci e na qual logo hei de morrer fica à beira do bosque. Do bosque dizem que se estende até o mar que rodeia toda a terra e que nele existem casas de madeira iguais à minha. Tampouco vi o outro lado do bosque. Meu irmão mais velho, quando éramos pequenos, me fez jurar que nós dois derrubaríamos todo o bosque até não restar uma única árvore. Meu irmão morreu e agora procuro e continuarei procurando outra coisa. No rumo do poente corre um riacho em que sei pescar com a mão. No bosque há lobos, mas os lobos não me amedrontam e meu machado nunca me foi infiel. Não fiz o cálculo de meus anos. Sei que são muitos. Meus olhos já não vêem. Na aldeia, aonde já não vou porque me perderia, tenho fama de avaro, mas que pode ter amealhado um lenhador do bosque?

Fecho a porta de minha casa com uma pedra para que a neve não entre. Uma tarde ouvi passos trabalhosos e depois uma batida. Abri e entrou um desconhecido. Era um homem alto e velho, envolto numa manta puída. Uma cicatriz atravessava seu rosto. Os anos pareciam haver dado a ele mais autoridade que fraqueza, mas notei que lhe custava andar sem o apoio do bastão. Trocamos umas palavras que não lembro. Disse afinal:

- Não tenho casa e durmo onde posso. Percorri toda a Saxônia.

Aquelas palavras convinham à velhice dele. Meu pai sempre falava da Saxônia; agora as pessoas dizem Inglaterra.

Eu tinha pão e peixe. Não falamos durante o jantar. Começou a chover. Com uns couros armei uma cama para ele no chão de terra, onde meu irmão morreu. Ao chegar a noite, dormimos.

O dia clareava quando saímos de casa. A chuva cessara e a terra estava coberta de neve recente. Deixou cair o bastão e ordenou-me que o erguesse.

– Por que devo te obedecer? - disse-lhe.

– Porque sou um rei – respondeu.

Julguei-o um louco. Apanhei o bastão e lhe dei.

Falou uma voz diferente.

– Sou o rei dos Secgens. Muitas vezes, levei-os à vitória na dura batalha, mas na hora marcada pelo destino perdi meu reino. Meu nome é Isern e sou da estirpe de Odin.

– Não venero Odin – respondi. - Venero Cristo.

Como se não me ouvisse, continuou:

– Ando pelos caminhos do desterro, mas ainda sou rei porque tenho o disco. Queres vê-lo?

Abriu a palma da mão, que era ossuda. Não havia nada na mão. Foi então que percebi que sempre a mantinha fechada.

Olhando-me fixamente, disse:

– Podes tocá-lo.

Já com algum receio pus a ponta dos dedos sobre a palma. Senti uma coisa fria e vi um brilho. A mão fechou-se bruscamente. Eu não disse nada. O outro continuou com paciência, como se falasse com um menino:

– É o disco de Odin. Tem um único lado. Na terra não existe outra coisa que tenha um só lado. Enquanto estiver em minha mão, serei rei.

– É de ouro? - disse a ele.

– Não sei. É o disco de Odin e tem um só lado.

Então senti a cobiça de possuir o disco. Se fosse meu, poderia vendê-lo por uma barra de ouro e seria um rei.

Disse ao vagabundo que ainda odeio:

– Na choça tenho um cofre de moedas escondido. São de ouro e brilham como o machado. Se me deres o disco de Odin, eu te darei o cofre.

Disse teimosamente:

– Não quero.

– Então – disse eu – podes prosseguir teu caminho.

Deu-me as costas. Uma machadada na nuca bastou e sobrou para que vacilasse e caísse, mas, no cair, abriu a mão e vi o brilho no ar. Marquei bem o lugar com o machado e arrastei o morto até o riacho, que estava muito cheio. Atirei-o lá.

Ao voltar para casa, procurei o disco. Não o encontrei. Faz anos que continuo à sua procura.

Ensaio sobre Adão — Robert Bringhurst

em quarta-feira, 3 de abril de 2024

Robert Bringhurst


Existem cinco possibilidades. Um: Adão caiu.
Dois: foi empurrado. Três: pulou. Quatro:
Ele apenas olhou para além da beirada, e essa visão o silenciou.
Cinco: nada digno de nota ocorreu a Adão.

A primeira, que ele caiu, é muito simples. A quarta,
medo, foi testada e descartada. A quinta, de que nada ocorreu,
é tola. A escolha fica entre:
Ele pulou ou foi empurrado. E a diferença entre as duas

é apenas uma questão de saber se os demônios
trabalham de dentro para fora ou de fora
para dentro: a única
questão teológica.