E começo aqui - Haroldo de Campos

em sexta-feira, 8 de maio de 2026

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala

A Propósito das Estrelas - Adília Lopes

em quarta-feira, 29 de abril de 2026


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

Um carrossel no Algarve - Virna Teixeira

em sexta-feira, 17 de abril de 2026


Um carrossel no Algarve. Round and Round. Simetria de neurônios-espelho, linguagem de gestos. Entimemas. E o reflexo do céu sobre a mesa. Na praia de Arrifana. Escuto Words na estrada nacional. Travessa das almas, calma de heroína no vilarejo. Laranjas e ciprestes. Come pastéis de massa tenra. Netuno burlesco e café austríaco, labirinto escuro no jardim do Éden. Estranho coração independente pendurado no lustre. Caranguejos de louça, recobertos de renda. Toothpick, Lisbon and the Orcas Islands. Sutura de espaço externo: linha distinta sobre o Tejo.

O Estrangeiro - Charles Baudelaire

em domingo, 5 de abril de 2026


in Pequenos poemas em prosa

— Quem mais amas, homem enigmático, responde: teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu

irmão? — Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.

— Teus amigos? — Você emprega uma palavra cujo sentido até hoje desconheço.

— Tua pátria? — Ignoro a que latitude está situada.

— A beleza? — Eu gostaria de amá-la, deusa e imortal.

— O ouro? — Odeio-o tanto quanto você a Deus.

— Que amas então, extraordinário estrangeiro? — Amo as nuvens... as nuvens que

passam ao longe... as nuvens maravilhosas!

Meditação - Rudolf Steiner

em sábado, 21 de março de 2026


Eu procuro no interior
A atuação das forças criadoras
A vida das potências criadoras.
Diz-me
A potência da gravidade da Terra
Por meio da palavra de meus pés,
Diz-me
O poder da forma do ar
Por meio do cantar de minhas mãos,
Diz-me
A força da luz do céu
Por meio da reflexão de minha
cabeça,
Como o mundo, no ser humano
    Fala, canta, reflete.


——— // ———


Meditation

Ich suche im Innern
Der schaffenden Kräfte Wirken
Der schaffenden Mächte Leben.
Es sagt mir
Der Erde Schweremacht
Durch meiner Füsse Wort,
Es sagt mir
Der Lüfte Formgewalt
Durch meiner Hände Singen,
Es sagt mir
Des Himmels Lichteskraft
Durch meines Hauptes Sinnen,
Wie die Welt im Menschen
    Spricht, singt, sinnt.

Alta noite quando escreveis - Jorge de Lima

em domingo, 15 de março de 2026


à senhora Heitor Usai

Alta noite, quando escreveis um poema qualquer
sem sentirdes o que escreveis,
olhai vossa mão — que vossa mão não vos pertence mais;
olhai como parece uma asa que viesse de longe.
Olhai a luz que de momento a momento
sai entre os seus dedos recurvos.
Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate
e a faz deslizar sobre o papel estreito,
com o clamor silencioso da sabedoria,
com a suavidade do Céu
ou com a dureza do Inferno!
Se não credes, tocai com a outra mão inativa
as chagas da Mão que escreve.

O louco - Luís Augusto Cassas

em sábado, 7 de março de 2026


in A Poesia sou Eu Vol I

(Breve Manual do Buscador)

Sou um executivo da alma:
a pasta de couro carrega
as 78 Lâminas do Livro de Thot
fitas de meditação confissões de iluminados
edições da Bíblia & Alcorão
tratados de astrologia poemas de Rumi
roteiro de locais energéticos
o tapete de orações
(por isso pendo
para o lado)

Os projetos que desenvolvo:
Amor Verdade Misericórdia
Difícil executá-los
sem mão de obra adequada
(à direita e à esquerda
à altura do coração)

Expandir a consciência
e atravessar os sete vales
é o meu maior negócio:
e a cada dia aumento o patrimônio
desfazendo-me do peso deste mundo
e quanto menos bagagem levo
mais rico me torno

Especialista em aeroportos & rodoviárias
sigo onde a intuição me leva
em busca do Amigo
Sinagogas mesquitas templos
conferências atlântidas comunidades esotéricas
círculo de iniciados da Era de Aquário
translúcidos da Era de Peixes
magos essênios da última sessão das 10
renascedores cabalistas quirólogos clarividentes
leitores de chakras e do Apocalipse
lamas tibetanos monges zen sheiks e mullahs
adoradores do fogo iogues extasiados
Oviste? Faz tempo!
Algum recado? Nenhuma chave!

(Em tempos remotos
devo ter percorrido idênticas trilhas
em lombos de camelos mulas e boeings
pois esses rostos e lugares são familiares)

Procurei-O no vinho
Não estava
Procurei-O no chá
Não estava
Procurei-O nas mulheres
Em vão
Fui ao Tibete a Jerusalém e a Meca
Tinha partido
Segui a trilha dos babilônios
Rastreei o deserto invadi o céu
Jejuei e fiquei nu exposto aos ventos
Ele não estava

Nas longas sessões de meditação
sinto que quando estou Ele não está
pois como poderia penetrar a água
o recipiente não estando vazio?

Então abandonei as paisagens exteriores
e viajei para dentro
(Jerusalém Meca nunca mais!)
Faxineiro que limpa a janela
embaciada pelo tempo
comecei a polir a estrada mais secreta:
o coração
Torná-lo limpo tal um espelho
para que o Amigo pudesse refletir-se
assim como um lago de águas cristalinas
em que o sol enamorado vem mirar-se
para conversar com peixes e algas
(Sempre dizendo seu nome
acionando as contas do tásbi*
como uma bússola magnética
indica a direção a seguir)

Agora viajo em terra natal
Visito diferentes países
como o orgulho e o egoísmo
Converso com os demônios interiores
até torná-los amigos
e transmutá-los em amor

Como o beduíno no deserto farejando água
eis que minha alma pressente a chegada do Amigo
Está nem mais velho nem mais moço
Não sabe de barbas nem de rosto
E na tarde verde-pistache
meu coração (em êxtase) se enche de flores
ao descobrir
que a quem busco é quem me busca
e ao som de uma floresta de flautas
dou-lhe as boas-vindas
dançando uma dança dervixe

_____

* Rosário árabe.

Rústica - Francisca Júlia

em quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026


Da casinha, em que vive, o reboco alvacento
Reflete o ribeirão na água clara e sonora.
Este é o ninho feliz e obscuro em que ela mora;
Além, o seu quintal, este, o seu aposento.

Vem do campo, a correr; e úmida do relento,
Toda ela, fresca do ar, tanto aroma evapora
Que parece trazer consigo, lá de fora,
Na desordem da roupa e do cabelo, o vento...

E senta-se. Compõe as roupas. Olha em torno
Com seus olhos azuis onde a inocência bóia;
Nessa meia penumbra e nesse ambiente morno,

Pegando da costura à luz da clarabóia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de jóia.

Cantiga de Sol - Mario Cezar

em sábado, 14 de fevereiro de 2026


ofereço versos de sonoras
magrezas
(fragmentos desprendidos
pela maturidade dos rios)
a todos que ousaram
repartir o calor do pão
quis o cântico
das marés noturnas
,
o lume do mineral
cristalino
,
os seios mornos do
primeiro amor
quis a peixeira do
meu avô
para rasgar em praça pública
a carniça do medo
(sob o olhar do povo em festa)

O homem, a luta e a eternidade - Murilo Mendes

em sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Murilo Mendes, retratado por Guignard


Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!

Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.

Bibliotecas - Edson Cruz

em quinta-feira, 22 de janeiro de 2026


A biblioteca do pai de Borges
foi o fato capital de sua vida.
Ele nunca saiu dela, disse.

Em minha casa nunca tive livros.
O fato capital de minha vida
é não ter tido pai.

Minha mãe foi minha biblioteca.
Ensinou-me tudo.
Nunca saí dela.
Era analfabeta e deveria
ter se chamado Alexandria.

Os três mal-amados - João Cabral de Melo Neto

em quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Pintura de Essam Marouf

/  trechos  /


O amor comeu meu nome, minha identidade, meu
retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor comeu
meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto
ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de
que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Fagulha - Ana Cristina César

em quinta-feira, 8 de janeiro de 2026


in A Teus Pés

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.

Relógio - Mario Quintana

em domingo, 28 de dezembro de 2025


O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

Semanário - Lindolf Bell

em sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Na segunda-feira trabalho.
Afio enganos, anos e anos.

Na terça-feira trabalho.
Faço promessas de vagar
e de pressas.

Na sexta-feira trabalho.
Descubro um buraco na calça.
Outro buraco na alma.
Liquido a traça.

Na quarta-feira trabalho.
Empilho o tédio em caixas.
Penduro em branco nas ruas,
as faixas.

Na quinta-feira trabalho.
Esqueço um percevejo
no fundo da gaveta
do desejo.

Sábado trabalho.
No fonema, no poema.
No sonho entalado da verdade.
No dilema da felicidade.

No domingo
sento numa praça deserta.
E penso, covarde,
na próxima semana
escrita no livro da liberdade.