Entrei na sombra como alguém que via - Daniel Faria

em domingo, 30 de novembro de 2025


in de Homens Que São Como Lugares Mal Situados

Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro
Entrei como sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorrer-me para os pés. Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.
Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre
Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha

449 - Emily Dickinson

em sexta-feira, 21 de novembro de 2025


Morri pela Beleza – mas mal
Me habituara ao Túmulo
Quando Alguém, morto pela Verdade,
Foi posto no Cômodo ao lado –

Suave me perguntou “Por que morreu?”
“Pela Beleza”, repliquei eu –
“E eu – pela Verdade – Ambas iguais” –
Disse ele – “Assim somos fraternais” –

Então, como Parentes na Noite –
Conversamos entre as Paredes –
Até que o Musgo nos chegou aos lábios –
E nossos nomes – recobriu

Era outono - não mudou de estação - Maura Lopes Cançado

em quinta-feira, 13 de novembro de 2025


Era outono - não mudou de estação.
Águas tremiam eternizadas na planura dos lagos,
como no ar tremeluziam palavras.
Lentes espelhavam figuras catatônicas -
e nas extremidades dos dias, novas claridades
entravam - não de todo límpidas.
Rios solenes, leitos profundos, grave caminhar.
Se tive consciência é mistério dos nautas
- imagens elevadas até o desconhecido:
Não esmaguei prováveis flores da Primavera;
não mudou de estação.

As palavras - Eugénio de Andrade

em quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Eugénio de Andrade, por José Viana


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?