Folhas de Vento - Edson Bueno de Camargo

em terça-feira, 25 de março de 2025


a lua se quebra
em penhascos de faca e gelo vivo
escamas de turquesa fina aguda
plumário de serpente

folhas de vento
suçuarana de sopro
suave fumaça leve
que dá vida ao barro

irmão coiote
caminha sobre as línguas da pradaria
sobre as pegadas dos que já são extintos
dos que sempre estarão

onde o velho jaguar pisa
nasce o caminho
que se revela
a bíblia do homem não é mais a do animal
desfez-se a harmonia
as manchas das costas de felino
escrito está o nome da criança deus

porção branda da brisa
serve de alimento
às dores da rocha mãe
o parto do tempo
areia esculpindo o mundo
a cria dos peixes à superfície da água
respirados pelo grande espírito
que é pai e mãe ao mesmo tempo
inflamam os pulmões da terra
cultivam vida até onde se pode levar

tornar a lembrar o que vai acontecer
que a chuva já caiu aqui ontem
e cairá lavando as dores e o medo
por pior frio
há primavera
alento e cores

soa o tambor dos olhos
soa o coração nos dedos
soa o trovão
chuva que chega
volta sempre a carne para meus ossos

Teorema - Beatriz Ramos do Amaral

em terça-feira, 18 de março de 2025



I

o tempo do poema
é um círculo de fogo
que os mitos visitam
à noite
e as salamandras em fila
designam

o rito expande o verbo
: espectro de luz
no tronco da palavra


II

vê-la
acesa como estrela
concisa - a fala,
pedra de moinho

lunar,
o fio de afeto
dá-me os verbos
epacta: reverbera

crista de gelo
imbrica no tempo
dançante: forma
de/mo/vê-la


III

invicto,
nos porões,
estame

tocha de luz
sobre o caule:
pesponto

nada se colore
ou desborda

a tinta finge -
amanhece o
que escurece

percurso de toques:
espanto

mais cedo, soprar
o sol nos dedos

rejeição nos ombros,
metáfora na boca


IV

descrevo o lago
mas o perfil de garça
se alastra

potência -
o ângulo do bico,
aresta

nenhuma regra
esculpe em pluma
um sentido

limo o gesto
no branco,
onde a ave:
mais clara


V

raio
sincopado na tarde
fosfóreo: barco lilás

no vácuo de espadas
meço palavras

fração entre brasas
: o lago me basta

Contranarciso - Paulo Leminski

em segunda-feira, 10 de março de 2025


em mim
eu vejo
o outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente centenas

o outro
que há em mim é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós