Elogio dos Sonhos - Wislawa Szymborska

em segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Wislawa Szymborska

Nos sonhos eu pinto como Vermeer van Delft
Falo grego fluente
e não só com os vivos
Dirijo um carro
q me obedece
Tenho talento
escrevo grandes poemas
Escuto vozes
não menos que os mais veneráveis santos
Vocês se espantariam
com minha performance no piano
Flutuo no ar como se deve
isto é, sozinha
Ao cair do telhado
desço de manso na relva
Respiro sem problema
debaixo d'água
Não reclamo:
consegui descobrir a Atlântida
Fico feliz de sempre poder acordar
pouco antes de morrer
Assim que começa a guerra
me viro do melhor lado
Sou, mas não tenho que ser
filha da minha época
Faz alguns anos
vi dois sóis
E anteontem um pinguim
com clareza

Guardar - Antonio Cicero

em sábado, 5 de outubro de 2024

 Antonio Cicero


Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista. 

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. 

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela. 

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos. 

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.