A cem quilômetros por hora,
solto a direção do automóvel,
para escrever alguma coisa
mais urgente que minha vida.
Devo portanto utilizar
o vocabulário econômico
do Século: é proibido
amar, fumar, pisar na grama.
Mas gostaria que restasse
algum tempo para dizer
no poema as palavras súbitas
de recompensa e remissão.
Ó meu Deus, eu quero escrever
a minha vida, não teu Céu.
Eu estou só e enlouquecido
como as ovelhas mais longínquas.
Dá pelo menos a esperança
de terminar o doloroso
poema. Dá isso a teu filho,
caído, e coberto de sal.
— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
É preciso que se demore sobre a escura pele da noite
Que se percorram as espessas camadas
Feitas de areia e cal
Asfalto a encobrir à rosa que ensaia na calçada
Um romper para a rotina das maquinas...
Que as mãos calejadas pouco a pouco se afastem
Da estranha superfície das molduras.
Que alcancem a estrela perdida no buraco negro.
O verso mudo e cortante
Abandonado em um caderno espera,
Enquanto se encena o absurdo teatro do nada.
Que se descanse o olhar lacrimejando
Sobre as pálidas fotografias deixadas na estante
Tal como folhas quedadas no fim do outono.
Que se descubram os passos atrasados perante a pressa
Da espelhar coreografia dos ponteiros...
Que se descubra o vazio que há em si
Tão grande que nem o amazonas é capaz de fechar
E que se aprenda o segredo do eco
Que se reconheça o terrível do cheio
Nele corre se o risco desnecessário de transbordar.
Que se ame como no primeiro olhar
Aquele que ainda não conheceu os corpos.
Que se desconheça a volúpia dos beijos molhados.
Eu te convido a colhermos lírio no campo
E deixá-los no passado - Sepulcro dos instantes.
Que se descubra outro cheiro para o poema moderno.
O olfato já não quer este cheiro de concreto
Talvez procure se o cheiro da terra molhada...
Que se escreva o poema feita de lamina
Sensível a dor sentida no acalanto da madrugada.
- Autor: Sandrio Cândido • Deixe seu comentário
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