O Esquecimento do extermínio
faz parte do extermínio
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Quieta, carência minha:
não pinceles assim, em ouro,
o que no barro é feito. Não
desvendes metáforas complexas
onde o verbo é quase sempre raso
e pouco. Não, não te atices
assim, toda a fim, outra vez,
de elaborar torturas acetinadas
sobre mesquinharias de algodão.
Não te bastou, então, toda essa estrada?
Quieta, quieta: silencia.
Como as tevês antigas, disciplinada,
procura ver em preto, em branco,
em calmaria. Não assim, despudorada,
policrômica, out-dooresca. Respira,
respira fundo, conta até dez.
Não telefone. Não fantasia.
Sossega. Chega de enganos.
Recolhe ardores indiscriminados,
os arrebatamentos, controla.
Controla-te, por favor, carência minha,
pois urge sublimar a ânsia do sublime.
Tenta, tenta. Ou toma um mogadom,
um valium, trinta miligramas (e três,
se for preciso). E dorme, dorme
bruta, dorme profundamente, dorme
sem sonho algum
enquanto chove dentro e fora a chuva fria
Amanhã tem mais.
Supõe-se que a prosa está mais perto da realidade que a poesia. Entendo que é um erro. Há um conceito, atribuído ao contista Horacio Quiroga, que diz que, se um vento frio sopra do lado do rio, deve-se escrever simplesmente: ‘um vento frio sopra do lado do rio’. Quiroga, se é que disse isso, parece ter esquecido que essa construção é algo tão distante da realidade quanto o vento frio que sopra do lado do rio. Que percepção temos? Sentimos o ar que se move, a isso chamamos vento; sentimos que esse vento vem de certa direção, do lado do rio. E com tudo isso formamos algo tão complexo quanto um poema de Góngora ou uma sentença de Joyce. Voltemos à frase: ‘o vento que sopra do lado do rio’. Criamos um sujeito: ‘vento’; um verbo: que ‘sopra’; em uma circunstância real: ‘do lado do rio’. Tudo isso está longe da realidade; a realidade é algo mais simples. Essa frase aparentemente prosaica, deliberadamente prosaica e comum escolhida por Quiroga é uma frase complicada, é uma estrutura. (trecho)
- Autor: Jorge Luis Borges • Deixe seu comentário
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