in O Diário Íntimo de Kafka
A vida da sociedade se move num círculo. Só os carregados com uma aflição comum compreendem-se recíprocamente. Graças a essa aflição eles formam um círculo e se apoiam mutuamente. Deslizam ao longo das fronteiras desse círculo, dão passagem ou se acotovelam uns aos outros gentilmente na multidão. Cada um encoraja o outro na esperança que isso reaja sobre si mesmo, ou – e é feito apaixonadamente – no gozo imediato dessa reação. Cada qual tem apenas a experiencia que sua aflição lhe concede; no entanto ouve-se os camaradas trocando várias experiências. “Você é assim”, um diz para o outro”; ao invés de se queixar, graças a Deus que você é assim, pois se você não fosse assim, você sofreria esta ou aquela desgraça, esta ou aquela vergonha”. Como esse homem sabe disso? Afinal, ele pertence ao mesmo círculo da pessoa com que está falando; sente a mesma necessidade de conforto. No mesmo círculo, contudo, a gente só sabe as mesmas coisas. Não a sombra de um pensamento que dá a quem conforta, uma vantagem ao confortado. Assim, a conversa deles consiste numa aproximação de suas imaginações. Às vezes se unem na fé e, com as cabeças juntas, olham para a distância inalcançável do céu. O reconhecimento de sua situação, contudo, só aparece quando abaixa a cabeça em comum e o martelo comum desce sobre ela.
- Autor: Franz Kafka • Deixe seu comentário
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