
I
o tempo do poema
é um círculo de fogo
que os mitos visitam
à noite
e as salamandras em fila
designam
o rito expande o verbo
: espectro de luz
no tronco da palavra
II
vê-la
acesa como estrela
concisa - a fala,
pedra de moinho
lunar,
o fio de afeto
dá-me os verbos
epacta: reverbera
crista de gelo
imbrica no tempo
dançante: forma
de/mo/vê-la
III
invicto,
nos porões,
estame
tocha de luz
sobre o caule:
pesponto
nada se colore
ou desborda
a tinta finge -
amanhece o
que escurece
percurso de toques:
espanto
mais cedo, soprar
o sol nos dedos
rejeição nos ombros,
metáfora na boca
IV
descrevo o lago
mas o perfil de garça
se alastra
potência -
o ângulo do bico,
aresta
nenhuma regra
esculpe em pluma
um sentido
limo o gesto
no branco,
onde a ave:
mais clara
V
raio
sincopado na tarde
fosfóreo: barco lilás
no vácuo de espadas
meço palavras
fração entre brasas
: o lago me basta

