Teorema - Beatriz Ramos do Amaral

em terça-feira, 18 de março de 2025



I

o tempo do poema
é um círculo de fogo
que os mitos visitam
à noite
e as salamandras em fila
designam

o rito expande o verbo
: espectro de luz
no tronco da palavra


II

vê-la
acesa como estrela
concisa - a fala,
pedra de moinho

lunar,
o fio de afeto
dá-me os verbos
epacta: reverbera

crista de gelo
imbrica no tempo
dançante: forma
de/mo/vê-la


III

invicto,
nos porões,
estame

tocha de luz
sobre o caule:
pesponto

nada se colore
ou desborda

a tinta finge -
amanhece o
que escurece

percurso de toques:
espanto

mais cedo, soprar
o sol nos dedos

rejeição nos ombros,
metáfora na boca


IV

descrevo o lago
mas o perfil de garça
se alastra

potência -
o ângulo do bico,
aresta

nenhuma regra
esculpe em pluma
um sentido

limo o gesto
no branco,
onde a ave:
mais clara


V

raio
sincopado na tarde
fosfóreo: barco lilás

no vácuo de espadas
meço palavras

fração entre brasas
: o lago me basta

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