É preciso que se demore sobre a escura pele da noite
Que se percorram as espessas camadas
Feitas de areia e cal
Asfalto a encobrir à rosa que ensaia na calçada
Um romper para a rotina das maquinas...
Que as mãos calejadas pouco a pouco se afastem
Da estranha superfície das molduras.
Que alcancem a estrela perdida no buraco negro.
O verso mudo e cortante
Abandonado em um caderno espera,
Enquanto se encena o absurdo teatro do nada.
Que se descanse o olhar lacrimejando
Sobre as pálidas fotografias deixadas na estante
Tal como folhas quedadas no fim do outono.
Que se descubram os passos atrasados perante a pressa
Da espelhar coreografia dos ponteiros...
Que se descubra o vazio que há em si
Tão grande que nem o amazonas é capaz de fechar
E que se aprenda o segredo do eco
Que se reconheça o terrível do cheio
Nele corre se o risco desnecessário de transbordar.
Que se ame como no primeiro olhar
Aquele que ainda não conheceu os corpos.
Que se desconheça a volúpia dos beijos molhados.
Eu te convido a colhermos lírio no campo
E deixá-los no passado - Sepulcro dos instantes.
Que se descubra outro cheiro para o poema moderno.
O olfato já não quer este cheiro de concreto
Talvez procure se o cheiro da terra molhada...
Que se escreva o poema feita de lamina
Sensível a dor sentida no acalanto da madrugada.
- Autor: Sandrio Cândido • Deixe seu comentário
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